O pecado não morava ao lado, mas sim na rua Notting Hill, em Londres. Ela era minha vizinha, tinha 18 e todos os dias passava pela minha rua. Com aqueles cabelos pretos, longos caídos pelo ombro, vestindo sempre aqueles vestidinhos floridos, sapatinhos vermelhos, que de longe chamava a atenção. Sempre no mesmo horário, às 17 horas da tarde, lá estava ela, desfilando pela calçada com toda aquela delicadeza, deixando vestígios do seu perfume doce - admito que era o perfume mais gostoso que já havia sentido. Todo sábado depois do almoço ela aparecia no meu portão com uma camiseta desleixada sem imaginar que eu já a aguardava desde o café da manhã. E bastava ela se aproximar pra que me sentisse mais vivo, os olhos ficavam mais atentos e todo detalhe parecia irremediavelmente perfeito, era uma ansiedade quase vital para que o sangue corressem pelas veias. Mas o que será que ela carregava no seu peito? Perto dela era como se eu desvendasse o meu passado, as angustias escapassem do corpo e as dores tão guardadas descem vazão um doce aroma rarefeito, contido nela. Eu respirava fundo e sentados no balanço da varanda despíamos o mundo que se calava, éramos apenas nós. É inexplicável como o tempo parecia infinito e era capaz de transformar apenas um par de horas em momentos de eterna duração.
Amarguisses & Oxigênio-dapalavra em“Eu achei dentro dela o meu coração.”
Publicado em 18 de Agosto de 2014, com 1.812 notas, às 7:44pm.