Os dedos cortam o fogo no topo da vela orquestrando os fios de fumaça que se entrelaçam num dueto de cordas silenciosas. Os olhos fixos capturam a forma perfeita da pequena labareda que consome a cera e o tempo. Sobre a iris escura o reflexo iluminado da chama paralisa a mente que mergulha fundo no abismo de dentro. O olhar permanece firme, não há desvios, é uma estrada reta até o sol. Sobre a pele o perigo eminente do fim sapatilha a vida em um tango suicida. Sobre os pés o diabo conduz a dança rodopiando pelo salão, elipses douradas riscadas sobre a superfície gelada do coração. A alma se cansa e apoiando os ossos sobre a mesa respira fundo e sopra. Os olhos se fecham, desistem dos sonhos, a madrugada é longa, misturo-me à escuridão.
Elisa Bartlett em “O Sopro”.
Publicado em 6 de Setembro de 2014, com 2.575 notas, às 11:34am.